Polarização e o Não-Debate

Tempos de radicalização ideológica são ineficientes. Tentando evitar que minhas ideias sejam classificadas na caixinha do “concordo” ou “discordo” já na primeira frase – ou, pior, de me ver pessoalmente categorizado como “do bem” ou “do mal” –, me vejo na obrigação de gastar mais tempo descrevendo o que não quero dizer do que realmente embasando meu ponto. E geralmente não funciona.

Como a internet é aberta para tudo e todos, nela fica ainda mais difícil se adequar ao fórum e ao ouvinte. Há argumentos e pautas que têm finalidade política, outros que servem a discussões técnicas ou simplesmente revelam, sob a forma de desabafo, uma impressão do que seria nosso zeit geist. Há muitas formas de se colocar em um debate, muitos chapéus que se pode usar para o mesmo conjunto de crenças, dependendo do interlocutor e do objetivo debate. Mas como os comentários virtuais atingem todas as pessoas em todos os âmbitos, fatalmente não dão conta do objetivo a que se propõe. Pior, muitas vezes viram uma massa amorfa e quase esquizofrênica de “mas”, “poréns”, disclaimers, etc, numa tentativa desesperada de evitar mal-entendidos.

Tomemos o caso da repercussão da recente condução coercitiva do Lula como exemplo. Há um debate sobre a parcialidade da mídia tradicional e a participação de instituições como a Polícia Federal no processo de desmoralização do PT. Há outro debate sobre a validade jurídica do instrumento de condução coercitiva. Há também um debate maior sobre a tensão, no processo investigativo, entre perda de direitos individuais e nosso histórico de impunidade. Todos esses debates têm nuances, como o conflito entre a presunção de inocência jurídica e o tempo da “condenação política”; a relação do histórico de corrupção no país com a jurisprudência recente no combate à corrupção e a liberdade investigativa da polícia; a responsabilidade das empresas e do sistema partidário nos casos de corrupção… São infinitas as possibilidades de debates necessários num momento de tamanha importância como a investigação de um ex-presidente da república.

Mas infelizmente não tenho visto muitos debates de qualidade sobre esses temas por aí. É impossível abranger todos esses campos em um só texto, e qualquer um que tenta abordar um tema particular é execrado por ignorar o “todo” do debate. O único debate que prevalece é o político-partidário, que apesar de necessário, geralmente não passa de gritaria e troca de ofensas – cada lado convencido ser o exclusivo conhecedor do tal “todo”. Felizmente não somos todos políticos e não precisamos entrar nessa discussão, podendo nos dar ao luxo de mostrar nossas incertezas e exercer nossa capacidade de se autoquestionar. Ocorre que, ao que me parece, a maioria das pessoas joga fora essa oportunidade e prefere embarcar num “nós contra eles” tão autoconfiante quanto fechado e improdutivo.

O lado bom da internet é que várias bandeiras necessárias são levantadas por todos os lados. Para o leitor que não tem interesse em ganhar uma discussão, mas sim questionar suas certezas, as redes sociais são um prato cheio. É claro que é preciso caçar argumentos inteligentes em um mar de falácias e contrassensos, mas com um pouco de paciência e alguns amigos fazendo o trabalho de garimpeiros e curadores de textos, é possível sair com muitas dúvidas saudáveis depois de algumas incursões no fogo cruzado. Uma pena que os debates não sejam levados adiante. Uma pena que a única maneira de ser ouvido pelo que se fala, e não pelo que supostamente se quer falar dada sua “caixinha”, seja pregar para convertidos, o que não costuma render embate nenhum, findando num discurso estéril e reforçador de verdades próprias.

Caso ainda não tenha ficado claro, esse é um texto desabafo, de cunho pessimista-mas-com-uma-vontadezinha-de-ver-o-lado-bom. Sem disclaimer, sem “porém” e sem chapéu que não o daquele que gostaria muito de debater sinceramente temas tabu sem o risco de linchamento.

Eu não sou político, não sou famoso e nem me acho detentor das verdades do mundo. Por isso, apesar da seriedade, não sou lá tão apegado às minhas ideias, que já mudaram muito ao longo dos anos. Espero que os eventuais leitores desse blog também me vejam assim e me ajudem a amadurecer. Esse é o espírito.

(nos próximos posts tentarei trazer mais conteúdo e menos blá-blá-blá)

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Um comentário sobre “Polarização e o Não-Debate

  1. Um termo que acho legal trazer para esse papo é a ideia do Ad Hominem. Ele cabe em diversos níveis desse mesmo debate.
    Ataca-se a presidente e o ex-presidente, como culpados exclusivos de tudo, e como se ao depreciar sua imagem pessoal, estaríamos debatendo suas capacidades profissionais. Sem colocar em pauta os sistema político-partidário que induz a corrupção.
    Ataca-se quem ataca essas figuras públicas aqui supracitadas. Afinal, essas pessoas seriam “burras” ou “alienadas” por não verem o absurdo sobre o qual está construída a investigação. Sem se debater o chamado quarto poder e a necessidade de uma democratização das mídias.
    Ataca-se quem não se pronuncia! Por ser “ingênuo” em não tomar lado A ou B. Mesmo que no fundo essa pessoa esteja apenas pensando sobre todas as questões que você levantou.

    Em todos os âmbitos, ataca-se o indivíduo e não seus argumentos. Virou paixão! E assim deixamos qualquer razão de lado…

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