Consumo Como Ato Político

A produção de carne é uma das principais responsáveis pela emissão global de gases de efeito estufa (mais que todos os transportes combinados, seja de carga ou passageiros), mas muitos consomem diariamente. O plástico é um problema enorme para a gestão de resíduos, além de utilizar combustíveis fósseis e muita água em sua produção, mas a embalagem de quase tudo que compramos é feita dele. O uso do carro como transporte individual é altamente poluente, prejudica o trânsito e gera problemas de espaço nas cidades com estacionamento, e ainda assim é amplamente difundido. A mão de obra escrava é utilizada em diversos setores – da agricultura e mineração à confecção de roupas e às manufaturas –, mas a despeito das acusações, marcas que a utilizam seguem líderes em seus setores. O óleo de palma está presente em quase todos os alimentos processados, como chocolates e biscoitos, apesar de ser extraído em países do sudeste asiático tão ferozmente que sua produção é uma das principais causas do desmatamento global. Frutas e legumes são muitas vezes importados, consumindo combustíveis fósseis quando há alternativas locais da época.

Por que fazemos escolhas tão ruins? Porque não sabemos; porque é conveniente; porque é mais barato; porque não temos alternativa; ou porque preferimos, cinicamente e com uma certa dose de egoísmo, ignorar. Nos exemplos citados acima todos esses fatores estão presentes em maior ou menor grau, e todos têm algo em comum: o indivíduo sai ganhando, mas a sociedade como um todo sai perdendo. O que podemos fazer?

Primeiro, é preciso entender o consumo quase como um ato político. Ao comprar um bem não estamos apenas realizando uma mera transação. Estamos apoiando uma empresa e suas práticas e, em última instância, financiando todo um sistema produtivo. Informar-se e privar-se de algumas coisas dá trabalho e é chato, mas do ponto de vista social esse custo é geralmente muito menor do que o custo de consumir sem pensar. Em outras palavras, se não estamos dispostos a consumir o produto socialmente correto (geralmente mais caro), não deveríamos estar dispostos a consumir a alternativa ruim (geralmente mais barata), e precisamos incorporar isso nas nossas escolhas pessoais.

É raro encontrar produtos “perfeitos”, mas a compra de produtos “mais corretos” já sinaliza para as empresas que nos importamos com certas causas, o que leva à criação de produtos novos e melhores na direção apontada pelos consumidores. Precisamos nos esmerar mais enquanto consumidores – esse é o preço de uma sociedade melhor.

Segundo, não podemos isentar as empresas. Elas podem até estar agindo dentro da lei em muitos casos, mas seu comportamento antiético não pode ser tolerado – a desculpa do “o mercado é assim” ou “é isso que os consumidores querem” não pode mais colar. Isso é ainda mais evidente ao lembrarmos que as próprias companhias têm imenso poder político na formulação das leis que as regulam, impedindo que comportamentos antiéticos se tornem ilegais.

Mas além desse discurso pelo consumo e produção conscientes, há algo que o governo possa fazer? Sim, e a ideia é simples: incorporar os custos sociais aos custos de produção e consumo. Esse é um conceito que todo economista já aprendeu, e na prática implica em cobrar impostos ou regular a produção, ambos com a mesma consequência “adversa” de aumentar o preço dos produtos. Por mais que preguemos a conscientização da população, é preciso reconhecer seus limites, e felizmente (ou infelizmente) aonde a moral hesita o bolso não falha. Essa talvez seja uma afirmação dura demais com pessoas com orçamentos apertados para quem o maior dilema moral seja o do sustento básico, não o do consumo responsável, e por isso voltarei a esse ponto mais adiante.

Se você concorda que as lógicas do consumismo excessivo e da produção predatória são deletérias à sociedade, precisa abrir mão também do seu “benefício” e aceitar preços mais altos. É importante enxergar o “muito caro” de produtos socialmente responsáveis como o real custo daquele bem, ou seja, a alternativa “irresponsável” é que é barata demais. Alguém paga essa diferença de custo, e se não for você mesmo no futuro, muito provavelmente será alguém em situação de vida pior que a sua, ou uma geração que ainda nem nasceu para lutar pelos seus direitos. Enquanto houver um preço distorcido para baixo (que não reflita o custo social de consumir o produto), coletivamente estaremos cometendo um equívoco ao produzi-lo.

E aqui volto ao consumo como ato político: se as pessoas não demonstrarem suficiente interesse – como hoje não demonstram –, nenhum presidente ou congressista irá cometer o suicídio político de taxar a carne, as embalagens descartáveis e a gasolina, ou de culpabilizar empresas legalmente por crimes em sua cadeia de produção.

Tenho a impressão que hoje essas medidas seriam extremamente impopulares, apesar de beneficiarem a sociedade. Isso se deve parcialmente – e apenas parcialmente, não nos enganemos! – ao fato que sua consequência seria a privação das camadas mais pobres de acessar bens essenciais. Mas há formas de contornar esse problema, como mecanismos de transferência de renda financiados pelo próprio imposto arrecadado. Se vierem acompanhadas desse tipo de mecanismo, não me parece haver motivo para se opor a essas medidas.

Em todos os exemplos citados no início do texto, estudos apontam que o custo de não fazer nada é muito maior que o custo de intervir hoje. Tal intervenção significará preços mais altos para diversos produtos, mas se frente a isso preferirmos ignorar o problema, a sociedade como um todo fará um mau negócio.

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2 comentários sobre “Consumo Como Ato Político

  1. Excelente texto, simples e esclarecedor!! Um dos pontos essenciais nessa discussão é que “as próprias companhias têm imenso poder político na formulação das leis que as regulam, impedindo que comportamentos antiéticos se tornem ilegais.” Quanto ao diagnóstico estou completamente de acordo. Porém, não acho que a solução seja passar para o Estado o poder de “incorporar os custos sociais aos custos de produção e consumo”. Deixar o Estado julgar em nome da população quais empresas são mais “éticas” que outras pode abrir espaço para arbitrariedades, injustiças e até fraudes. Da mesma forma que as companhias influenciam na formulação das leis, nada impede que elas tenham poder sobre órgãos de regulação. Sou a favor de regulações, mas com muita parcimônia e com regras claras e objetivas.
    Tendo a achar que a responsabilidade deve recair na população, sempre. É o caminho mais longo, porém mais seguro, pois contribui para a politização. Portanto, discordo que “por mais que preguemos a conscientização da população, é preciso reconhecer seus limites”. Falar e decidir em nome do povo “limitado” é um princípio que não subscrevo. Caso a empresa seja legal, mas imoral, o único caminho para impedi-la de atuar é se organizar politicamente para alterar a lei que permite imoralidades. Fora do âmbito legal, pode-se sempre fazer campanhas de conscientização, boicote, etc.
    Parabéns pelo texto e pelo excelente Blog!

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    • Obrigado pelo ótimo comentário! O debate que você colocou é importante, e como acredito ter mais concordâncias que discordâncias tentarei fazer três esclarecimentos.

      1) Há temas que não cabe a ninguém julgar o que é melhor (nem o Estado nem a sociedade), uma vez que são apenas fatos. Se uma empresa gera lixo tóxico no seu processo produtivo, ela deve ser responsável pelo custo de tratamento. Não me parece haver escolha a ser feita. Ainda assim, regulações devem ser acompanhadas de explicações claras à população.

      2) Sobre o poder limitado da conscientização, não quis dizer que o Estado deve arbitrariamente escolher o que fazer. Na verdade, não acredito que haja essa oposição entre uma decisão popular e decisões do Estado, mas sim que ambos se influenciem. Em outras palavras, a conscientização (via campanha e boicote, como você mencionou) mostra aos políticos que há interesse social em alguns temas, mas se acabasse aí seria muito pouco. Cabe então a políticos capitanearem essas bandeiras e engrossarem o caldo dessas causas. Apenas quando a sociedade de fato abraça-las é que cabe intervenção.

      3) Existem trabalhos multidisciplinares que tentam explicar o que acontece na cabeça das pessoas que as levam a tomar decisões ruins. A conclusão é que não temos capacidade de sempre enxergar impactos de longo prazo ou distantes geograficamente e de entender que a ação coletiva passa pela ação individual. Por isso, acreditar em causas não é suficiente para agir em prol delas, e acho que cabe ao Estado coordenar essa ação coletiva.

      Abraço!

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