Crescimento do PIB: como chegar lá?

No texto anterior apontei a importância de um PIB que cresce como condição necessária, mas não suficiente, para elevar o bem-estar da população via o suprimento de suas necessidades e desejos. Por isso os economistas há muito tempo se perguntam: o que fazer para crescer? Infelizmente não há uma resposta definitiva, mas vou tentar explicar a lógica por trás de algumas teorias.

Comecemos pelas mais simples. A sociedade tem uma quantidade limitada de pessoas produzindo coisas, e a mais óbvia maneira de crescer é aumentando o tamanho da população, que produzirá mais coisas. À primeira vista, esse crescimento não importaria pra nada: quando dividirmos a renda pelo número de pessoas, cada indivíduo estará, na média, na mesma. Ocorre que a demografia é muito importante para a economia, gerando o famoso “bônus demográfico”: se a população ficar constante, mas o número de pessoas em idade de trabalhar crescer relativamente ao resto, voilá!, temos mais dinheiro pra todo mundo na média. O Brasil passou por esse fenômeno nas últimas décadas, mas ele não deve durar muito mais – aliás, lembre-se do nosso problema com a previdência. Fué…

Uma segunda maneira é acumulando capital. O que significa isso? Significa que a sociedade como um todo pode consumir menos, poupar um pouco para investir em máquinas e outras coisas que nos ajudem a produzir mais e, no futuro, colher um PIB maior. A ideia é que, mesmo consumindo uma proporção menor do PIB hoje e no futuro, o consumo total, somando as gerações presente e futura, será maior – pode ser que a geração atual sofra um pouco, mas o benefício às gerações futuras compensaria o esforço. Há evidências de sobra que o Brasil é um país que poupa pouco, mas não há consenso sobre o que fazer para pouparmos mais. A via mais advogada por aí seria o governo “forçar” isso, ou seja, cobrar mais impostos e/ou gastar menos. Ficam claras, novamente, as escolhas políticas: quem fará a poupança forçada; quem sofrerá com a austeridade; e a escolha de se incorrer em um prejuízo à geração atual em prol de gerações futuras.

Além das escolhas acima e de regular a “barganha” distributiva mencionada no texto anterior, o governo tem outros papeis relacionados ao PIB – e evidentemente há muitos outros que nada têm a ver com a economia. A visão que “o setor público não gera riqueza, é um parasita da população” não é correta. É certo que ele não pode fazer um país crescer infinitamente por si só, já que seus gastos (que geram renda para pessoas) precisam ser financiados com impostos (que tiram renda das pessoas), mas há diversas situações em que a atuação governamental deixa, sim, o país mais rico. Vamos a exemplos.

  • O governo pode construir ou subsidiar um projeto de infraestrutura que não é inicialmente rentável à iniciativa privada, e por isso nunca sairia do papel. Pense numa ferrovia. Sem ela os custos de se produzir alguma coisa podem ser muito altos, dado que não há como transportá-los aos mercados consumidores de maneira eficiente. Assim, não haveria produção a ser escoada pela ferrovia, mas uma vez construída ela geraria os incentivos à produção que a tornam útil (e rentável) no fim das contas.
  • Escolhas políticas têm papel fundamental na distribuição de renda e riqueza, o que por sua vez pode ter impactos sobre o crescimento. Não há consenso em torno desse mecanismo (que mais igualdade gera crescimento), mas as evidencias existentes se somam aos demais motivos para perseguirmos uma sociedade menos desigual.
  • As pessoas podem não conseguir bancar ou não reconhecer os ganhos de investimentos de longo prazo, como educação, que podem tornar o país mais rico. O mesmo vale para saúde e outros tantos exemplos.

Por outro lado, o governo também pode atrapalhar as coisas. Esse prejuízo pode ser bom para a sociedade, como uma regulação que impede uma fábrica de jogar resíduos nos rios, mas pode também ser simplesmente ruim: por exemplo, exagerando na burocracia para se exercer atividades simples.

Por fim, o grande mistério da economia é o crescimento via aumento de “produtividade”. Esse é um conceito vago até para economistas, mas em linhas gerais significa conseguir produzir mais utilizando o mesmo número de pessoas, horas trabalhadas, máquinas e matérias primas. Economistas não conseguem medir a produtividade diretamente nem têm uma receita de bolo sobre como aumentá-la, mas sabemos de sua importância porque é assim que países ricos ficaram tão ricos, o que dá pistas sobre como chegar lá. Investir em educação é uma maneira: seja por fomentar a invenção de modos de produção melhores ou por fazer com que as mesmas pessoas, com as mesmas máquinas, consigam produzir mais coisas. Esses exemplos são meio “industriais”, mas o mesmo vale para serviços como um marceneiro que consegue fazer um móvel sem errar as medidas. Outra maneira é ter instituições melhores, como um judiciário que funcione bem, um grau de corrupção menor, etc., que dariam respaldo para o setor privado gerar inovação e empregos. Em suma, uma maior produtividade aumenta a renda do país sem que precisemos trabalhar mais tempo, apenas trabalhando melhor. Aliás, se julgarmos positivo, poderíamos até abdicar da renda extra e usar ganhos de produtividade para trabalhar menos e desfrutar de mais horas de lazer!

Essas são algumas formas de crescer, mas no último texto afirmei que nada disso vale pra nada se não for feito de maneira sustentável. Muitas vezes regulações impostas aos produtores e consumidores (como leis ambientais) são tratadas como custosas ao crescimento do país, mas esse raciocínio frequentemente não se sustenta. Os custos de lidar com os efeitos do aquecimento global; os gastos em saúde para lidar com problemas relacionados à poluição do ar; o efeito deletério de sistemas prejudiciais à saúde mental sobre a violência e a própria produção; e as consequências de muitas outras práticas insustentáveis podem ser mitigadas pela regulação, que nos levaria a um país mais próspero economicamente. Podem, inclusive, aumentar a produtividade da economia (menos carros e mais transporte público, por exemplo). É possível crescer mais e de maneira sustentável, e essa é mais uma decisão política que a sociedade precisa tomar, lembrando que manter as coisas – e o mercado – como estão já representa uma escolha.

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