Narcisismo Ideológico

Tenho a impressão que, além do narcisismo com nossa imagem, as redes sociais têm revelado um certo narcisismo de opiniões. Uma opinião divergente da nossa (no editorial de um jornal, na página de um colunista ou na timeline de um amigo) é suficiente para abominar seu propagador; um político que discorda de nós em algum ponto não mais “nos representa”; toda e qualquer pauta é inegociável – qualquer desvio do “eu” merece a pena máxima. Do ponto de vista de políticas públicas, a consequência é o auto isolamento do debate político, deixando decisões importantes para o país nas mãos dos que negociam – com maior ou menor competência; e com boas ou más intenções.

Começo com um desabafo. Perdemos a capacidade da verdadeira política, de conversar, negociar, ouvir, ceder, convencer, repensar… e descambamos para a soberba e o narcisismo. Perdemos a capacidade de aceitar que não somos os únicos detentores de boas intenções e que, mesmo que fôssemos, podemos estar errados. Nem tudo será como queremos, e isso não é uma tragédia. Perdemos a capacidade de entender que nossas diferenças não são só ‘normativas’, ou seja, de crenças ou intenções – ainda que fossem, seria preciso uma boa dose de humildade para admitir que aquilo em que acreditamos pode não ser o que a sociedade como um todo quer.  Diferimos também de maneira ‘positiva’, ou seja, quanto aos mecanismos que regem o mundo e, portanto, as melhores ações para alcançar um fim. De novo: podemos estar errados. Perdemos também a capacidade de nos questionar, de fazer uma avaliação crítica do mundo e das nossas próprias ideias. Nossa necessidade de estarmos sempre muito certos e pertencermos a um grupo coeso nos fez abandonar nuances ideológicas e abraçar a polarização. Isso só é possível graças a essa resistência a atualizar analiticamente nossas crenças com base em informações novas e argumentos alheios.

E o pior de tudo: perdemos a capacidade de conviver com diferenças. Quando menores, fazemos parecer grandes; quando maiores, insultamos, menosprezamos e ostracizamos quem nelas acredita. E tudo isso permeado por uma relativização aonde atos inaceitáveis de uns são relevados em outros – o inegociável se revela não tão inegociável assim, mas apenas uma preferência cuja força depende das circunstâncias.

Narciso provavelmente não admitiria que pode errar ou, pior, que errou. Nós somos ainda piores: não só idolatramos nosso espelho como não queremos conviver com ninguém além dele. E para não morrermos na solidão ideológica, conformamos nossas ideias a uma ideologia pronta: um grupo, um conceito ou um movimento. E assim viramos caricaturas bizarras de imagens quase religiosas, adorando aos nossos para nos sentirmos irretocáveis em nossas crenças.

Depois dessa não-tão-pequena elucubração – peço desculpas aos entendidos do assunto –, volto à temática mais marcante desse espaço: políticas públicas. E aqui há três desdobramentos importantes. Primeiro, esses grupos caricatos que citei acima são pequenos, e nunca elegerão ninguém. Esse não seria um problema se pensarmos que eles representarão interesses específicos e farão alianças para que ao menos algumas de suas pautas sejam levadas adiante no processo político. Aí entra o segundo problema: alianças políticas são impossíveis se desprezamos e maldizemos nossos potenciais aliados. Admito que radicalismos cumprem um papel importante no espectro político, mas se todos que prezam por valores e princípios forem radicais dentro dos seus próprios, entregaremos as políticas públicas de bandeja para aqueles que não os têm. Por fim, o último desdobramento é que a avaliação dos resultados de uma política pública é geralmente feita de maneira empírica, ou seja, pela adequação da sua intenção ao seu resultado. E quem já transitou nesse mundo sabe que as evidências de hoje porem ser contraditas por novos dados e métodos amanhã. Se não tivermos a capacidade de nos questionar constantemente e de ouvir argumentos contrários aos nossos, cairemos na armadilha do excesso de confiança num mundo de incertezas.

O progresso ocorre devagar, e nosso papel é empurrar a história tanto quanto possível para o lado que acreditamos. Há um a citação de Keynes que diz mais ou menos assim: é impressionante as barbaridades nas quais podemos acreditar quando pensamos sozinhos por muito tempo. Em nossas redes-bolhas, me parece que acreditamos ser possível mudar o mundo rápido e sem dialogar, e que isso seria bom. Se pensarmos assim e tivéssemos poder, provavelmente seríamos totalitários. Como não temos (viva a democracia!), colheremos com essa postura uma história que se afasta mais e mais de nossos valores.

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Em tempo: admito que posso estar errado, e coloco uma visão mais otimista que li há alguns meses, do Contardo Calligaris:

“Hoje, acho difícil votar em alguém que me represente – porque, simplesmente, parece-me que ninguém nunca realmente representa ninguém.

Eu enxergo essa mudança como um sucesso civilizatório: diminuiu nossa disposição a adotar as ideias e as condutas de um grupo, diminuiu nossa capacidade de renunciar, pelo bem do grupo, às exigências do que há de singular em nós e em nossas esperanças políticas.

Talvez, a médio prazo, isso seja incompatível com a democracia eleitoral representativa. Mas não por isso deveríamos ser nostálgicos de nosso passado partidário. Ao contrário. Seria a ocasião de inventar novas formas de democracia – uma democracia para cidadãos ciosos de sua singularidade, desconfiados de grupos e coletivos. Vamos ver.”

Se ele estiver certo, só coloco mais uma questão: até que esse novo sistema apareça, fazemos o que?

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