Sugestões Práticas para um Debate Construtivo*

Há muitos manuais sobre as falácias das lógicas formal e informal, classificando cada uma delas através da agregação de situações similares. O objetivo desse texto é fazer o caminho inverso: identificar como exemplos específicos são repetidos recorrentemente e sugerir a abolição do seu uso para um debate de maior qualidade. Em outras palavras, não busco aqui conceitos, mas situações práticas, sem a pretensão de entender suas implicações mais profundas.

Sirva ou não para mais alguém, ao menos é uma documentação do que tenho visto; não tenho gostado; e procuro não fazer. E como não faltam exemplos, estou aberto a mais sugestões!

  • Sujeito oculto ou indeterminado – “querem arruinar o país”

Quem quer arruinar o país? Tenho a impressão que ao tentar apontar os culpados, os que usam esse artifício serão forçados a uma reflexão mais cuidadosa.

  • Voz passiva – “o país foi arruinado” ou “as críticas desapareceram”

Como no caso anterior, ter que apontar um culpado pode incitar uma boa reflexão.

  • Personificação de conceitos e instituições – “esse sistema político é cruel”

Conceitos não têm desejos, objetivos ou preferências. As generalizações e preconceitos ficam mais flagrantes quando trocamos os conceitos por agentes. O golpe não é homofóbico (talvez os golpistas sejam, e aí a generalização fica flagrante, bem como a necessidade de definir quem são eles); o PT não é corrupto (definir quem é corrupto lá dentro e por que pode sugerir soluções); o capitalismo não quer que as pessoas consumam sem parar (pode ser edificante pensar com mais profundidade sobre como o sistema funciona e quem tem interesses desse tipo, ou que aspectos do capitalismo são cruéis e por que); uma gestão não é burra (o gestor pode ser, mas uma gestão é composta por muita gente).

  • Rótulos – “a esquerda é (…)”

Já escrevi textos sobre isso (aqui e aqui). Acho que o ponto central é que apesar de termos bem claro na nossa cabeça o que cada rótulo significa (talvez nem isso…), esses conceitos mais confundem do que ajudam a compreensão. Também afasta os que se sentirem acusados injustamente por se acharem parte do grupo rotulado mas não do subgrupo ao qual você está se referindo. Melhor é abordar a ideia de maneira direta: “aqueles que afirmam X são (…)”.

  • Dizer de alguém algo que você não diria diretamente à pessoa – “fulano é um ignorante”

Imagine-se falando para as pessoas as coisas que você escreve se referindo a elas. Vai perceber que há maneiras melhores de dizer o que você quer dizer, e isso pode até induzir a uma reflexão sobre o que você mesmo acredita (“ele não é tão ignorante assim, então talvez tenha uma ponta de razão sob alguma outra ótica”).

  • Rigor ao construir uma frase – “A causa B” é diferente de “A pode levar a B”

Não só facilita a compreensão dos outros como te força a pensar melhor sobre o assunto. Quando tratamos de temas que não são tão familiares a todos, isso também é fundamental para “educar” as pessoas sobre o tema. Seu texto não é bom se não reflete suas ideias – e nesse sentido “refletir” não é um processo passivo: exige a compreensão do outro. Ser bem interpretado é geralmente (mas não sempre) uma responsabilidade de quem escreve/fala, não de quem lê/ouve.

  • Ironias e cutucadas – “isso é como uma lei da física, mas fulano parece querer ignorar”

Pense bem. Fulano realmente ignoraria as leis da física? VocÊ tem certeza que ele é tão mal intencionado a ponto de optar por ignorar uma lei da física? O mais provável é que ele simplesmente esteja olhando para o problema de outro ponto de vista. Entender esse ponto pode te ensinar alguma coisa, nem que seja um bom jeito de convencê-lo que está errado.

  • Texto afirmativo vs. bater num espantalho

É muito fácil ganhar um jogo de xadrez quando você move as peças dos dois lados e quer que um deles ganhe. É como aquelas discussões imaginárias, nas quais submetemos nosso oponente a uma derrota humilhante (as minhas ocorrem no chuveiro). Mas essa prática é tão fácil quanto improdutiva, seja do ponto de vista intelectual ou hídrico. Encare o fato de que seu espantalho não argumentará tão bem quanto seu oponente de verdade; escreva um texto com os seus argumentos, não um texto desbancando os argumentos que você supõe que seu oponente usaria.

  • Conclusão política

Acho um pouco maluco textos que, por exemplo, constroem todo um argumento em torno de uma política de governo específica e a conclusão é que o governo é, de maneira geral, isso ou aquilo. Aí o texto deixou de ser objetivo e passou a ser político – nada de errado, só acho que estamos pecando pelo político demais e técnico de menos. Se a conclusão é sobre o governo ser isso ou aquilo, que essa seja a linha argumentativa; se o argumento é sobre um política específica, que a conclusão não escape para outros campos.

  • Referências vagas

Textos que invocam autores lá e cá e passeiam por um tema num misto de revisão bibliográfica com ‘indiretas de tia no jantar de família’ geralmente convencem os convencidos e incitam revolta em quem discorda – discordam, mas por não haver argumento claro frustram-se ao não entender por quê. Ou seja, servem para muito pouco. Se há um ponto a ser feito, que assim seja, de maneira clara e direta; se não há, então não há texto a ser escrito (na minha opinião, bons textos apresentam a conclusão logo no início).

  • Ótica própria para descrever reações alheias (ou: falta de vontade analítica)

“Fulano ficou desmoralizado ao falar isso”. Ficou mesmo? Ficar desmoralizado na sua opinião não quer dizer que assim o foi na opinião de outros. Afirmações como essa deveriam ser analíticas, não passionais, e há maneiras de se investigar a opinião pública objetivamente.

  • Excesso de adjetivos

Cada adjetivo merece uma argumentação do por quê está ali. Uma proporção muito grande de adjetivos significa que vários estão passando inexplicados, o que sugere meros ataques sem fundamentação.

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*Texto em constante atualização. Por ser uma coletânea de ideias soltas, esse texto provavelmente terá sua versão original modificada mais de uma vez, seja para incluir novos exemplos ou corrigir/melhorar as explicações de cada um

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