Uma Sociedade de Partidos

Por que o debate político está tão polarizado? Por que há pouco diálogo? Por que as análises são pobres e cedem cada vez mais espaço a finalidades políticas? A sociedade parece ter sido absorvida pela lógica político-partidária, desperdiçando o privilégio de poder pensar livremente – com contradições e sem cálculos políticos. Ao invés de formarmos crenças e exigirmos dos partidos que as levem adiante, abraçamos/abominamos partidos e moldamos nosso comportamento de forma a apoiá-los/atacá-los. Nesse texto uso o exemplo da Rede para amparar essa conjectura em específico, sem pretensões de abordar outras facetas da questão.

A Rede é um partido que deveria concentrar muitos eleitores, mas isso não ocorre. De “um lado”, prega responsabilidade econômica, reformas estruturais, gestão eficiente, transparência e combate à corrupção; de outro, a distribuição de renda, um ajuste fiscal que preserve os mais pobres e a responsabilidade ambiental. Todas são pautas que deveriam ressoar, por um lado ou por outro, nos cidadãos. Concorde ou não com os quadros da Rede, é preciso reconhecer que são sérios e pensantes, bem menos demagogos que boa parte dos congressistas, além de passarem quase que despercebidos (se não ilesos) pelas investigações de corrupção. São políticos que se aproximam muito mais do candidato almejado pela população do que com os políticos desacreditados e sem fibra ideológica.

A Rede não foi complacente com os equívocos do governo Dilma nem comprou de olhos fechados as soluções propostas por Aécio. Seu programa de governo é claro e sua visão de participação social (também permeável ao setor produtivo) a destaca dos demais partidos como um agente aberto ao diálogo. É um “centro” que, ao invés de abandonar sua ideologia para atrair o eleitor mediano, abarca ideias dos dois lados do espectro político desde que condizentes com sua linha ideológica mestra. Para quem não gosta do centrão, obviamente há alternativas melhores. Mas definindo o centro de maneira unidimensional como um híbrido da “esquerda” com a “direita”, o que a Rede representa deveria, em tese, contar com um suporte eleitoral grande. Então por que a Rede é tão lateral no debate atual?

Para refletir sobre a pergunta, coloco uma outra antes: por que temos tanta necessidade de aderir a um grupo ideológico? Me parece que em parte seja porque assim nos livramos de responsabilidades sobre o que dizemos. Como temos (ou deveríamos ter) incertezas, essa responsabilidade significaria mais esforços para checar o que estamos reverberando, e ainda correr o risco de estarmos errados. A alternativa de simplesmente se calar e refletir também não parece viável, em especial nas redes sociais, nas quais o que falamos é o que nos define, e se não falamos nada, não somos nada. Diante de todas essas dificuldades, muito mais fácil é aderir a um grupo, cujas costas largas suportam todo e qualquer potencial equívoco das nossas opiniões. E se o grupo estiver errado, ninguém se responsabiliza; e segue o jogo até a próxima opinião equivocada.

Pois bem. A Rede não se radicalizou; não foi pra lá nem pra cá. Não condenou institucionalmente o “golpe”, apesar de dar total liberdade ao seu principal quadro em atividade, o Senador Randolfe Rodrigues, para que se colocasse na linha de frente contra o processo de impeachment. Marina Silva – a imagem do partido – defende, desde antes da abertura do processo de impeachment, a cassação pelo TSE (processo que ora se inicia sem muito alarde do PT, PSDB, PMDB e movimentos “anti-corrupção”). O partido também tem se posicionado contra as reformas propostas por Temer, mas sempre de maneira propositiva e reconhecendo a necessidade de mudanças, apenas não da forma que o governo propõe. Há inúmeros outros exemplos, e o corolário é sempre o mesmo: é um partido de nuances e de reflexão – ou, como preferem alguns, de contradições. É um partido que se define de maneira clara em termos de linha ideológica, mas respeita a diversidade de seus membros. É claro que há lacunas em temas cruciais, mas é isso que um partido com ambição nacional deve fazer: limitar-se a menos “inegociáveis” e conduzir o debate para o que julga ser correto. Em suma, é um partido de “costas estreitas”, que reconhece dúvidas e não permite que dissidências preguiçosas se amparem nele. Talvez não seja o que a sociedade busca – em momentos de crise, precisamos de certezas.

Como li um analista dizendo*, “a esquerda está em luto”, brigando internamente sobre o que foi mais grave: os erros do governo Dilma, a falta de coragem do governo Lula, ou o golpe parlamentar. Em qualquer um desses campos, a resposta proposta envolve uma oposição destrutiva e incondicional às alternativas (isso desde as últimas eleições). A direita está deslumbrada, se lambuzando na possibilidade de consertar tudo aquilo que passaram anos criticando, fechada a opiniões contrárias como se todas representassem um regresso ao que, na sua visão, causou a crise em que nos encontramos. Ambos estão ocupados demais em suas cruzadas, aonde não cabe nenhuma narrativa que fuja das trincheiras da luta contra o passado. E aqueles que tentam desenvolver um projeto que mire o futuro são solenemente ignorados. Essa postura é talvez mais compreensível para os partidos e seus políticos, mas não para a sociedade.

Seja em torno de ideias de um partido de “centro” como a Rede, outros mais extremos como o PSOL ou o NOVO, ou algo diferente que surja por aí (ainda que não sob a forma um partido), espero que um debate mais construtivo floresça na sociedade até as próximas eleições. Entender o passado é indispensável, mas apenas instrumental para o objetivo de moldar o futuro. Cabe às pessoas guiar os jogo partidário para o rumo que querem.

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*Celso Rocha de Barros (aqui), de onde tirei a citação e um pedaço da inspiração para o texto.

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Um comentário sobre “Uma Sociedade de Partidos

  1. Sobre o ponto geral do texto, acho que está faltando mesmo ciência política. Sua expectativa de os eleitores se identificarem com a Rede rapidamente é irreal, tendo em vista nossas instituições e a demora no processo social para a identificação partidária. Com relação aos mecanismos psicológicos de polarização e identificação partidária, minha leitura da literatura é que isso é algo novo e que estamos começando a entender agora. Então ainda tem muita especulação mesmo. Um dos mecanismos propostos é que o motivated reasoning é mais efetivo entre mais escolarizados e mais informados, gerando o “paradoxo” que os mais informados são os mais partisans e, portanto, mais polarizados e radicais. De todo modo, o que vejo faltar sempre em suas postagens sobre o tema é o custo da aquisição da informação por parte do eleitor, e como isso interage com as instituições. Num sistema partidário altamente fragmentado como o nosso, a razão sinal-ruído emitido pelos nossos partidos é muito baixa. Associe a isso um sistema de lista aberta proporcional com alta magnitude, e fica difícil para o eleitor associar bons comportamentos políticos no congresso e suas preferências políticas. Sem falar, é claro, na questão de sociologia política de como partidos conquistam militantes e filiados. Há toda uma literatura sobre a transformação dos partidos políticos (partidos de massa, burocrático etc.) que tenta explicar a queda do número de filiados e identificados com algum partido (que de alguma forma parece estar revertendo com a polarização política).

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